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«Os habitantes da nossa zona respeitam-nos muito»

Thugs: A voz silenciosa dos gangs juvenis cabo-verdianos

Praia - Quando se fala da violência urbana na Cidade da Praia é incontornável citar os «thugs». Temíveis grupos compostos por uma a duas dezenas de jovens, oriundos dos bairros mais precários da capital cabo-verdiana, reputados pela sua violência.

O fenómeno dos «thugs» foi exportado para Cabo Verde pelos chamados «retornados», jovens delinquentes de origem cabo-verdiana nos Estados Unidos que, por motivos judiciais, foram expatriados para Cabo Verde onde, além da identidade familiar, não tinham qualquer relação ou conhecimento do país, e desconheciam a sua cultura e língua. Desenraizados, naturalmente agruparam-se, e inspirando-se dos filmes de «gangsters» norte-americanos e das simbologias do Rap, criaram uma versão local do crime organizado.

O termo «thug» foi também importando dos EUA, que por sua vez adoptara este vocábulo do hindu, que designa «rufia» ou «grupo de assassinos profissionais». Uma designação que acabou por ser igualmente adoptada em Cabo Verde, precisamente com o mesmo significado.

Oficialmente, para o Governo, o fenómeno dos «thugs» está em forte declínio e referem que apenas alguns grupos isolados, já identificados pelos serviços de segurança cabo-verdianos, sobrevivem. Menos ouvida é a versão dos thugs relativamente ao seu próprio fenómeno e motivações.

Por motivos de segurança os thugs contactados, nos seus territórios (zonas), pediram que o seu nome não fosse revelado. Temem represálias da polícia que, supostamente, os responsabiliza e pune por «qualquer crime».

Entre os múltiplos gangs da Cidade da Praia destaca-se o Grupo Tropa Cabral (GTC), reputado pela sua violência. O chefe do grupo não é, necessariamente, o mais velho, mas sim aquele que se destacou pela sua «violência e coragem», ou seja, o mais temido. No entanto há um ponto comum em todos os elementos, todos são oriundos de famílias pobres, de bairros precários onde a sociedade não lhes deu uma oportunidade, e assim, integraram um grupo não só para beneficiarem de protecção mas principalmente com um sentimento de adopção numa nova família.

«Eu era um menino de rua na Sucupira (bairro da cidade da Praia). Comecei a andar com jovens mais velhos. Esses mandavam-me fazer coisas que eles não queriam fazer. E eles davam-me protecção. Primeiro comecei com assaltos a veículos, lojas e pessoas», conta um chefe de um grupo de thugs.

«Nós nunca começamos como thugs, ninguém começa como thug», esclarece outro elemento, «começamos apenas como amigos influentes na zona (território). São os de fora que nos chamam os thugs, para nós são grupos. Nenhum de nós entrou num grupo porque queria, mas porque a situação às vezes na casa não está bem, saem para rua e ficam na rua, aí juntam-se com outros. Quando está junto a eles (elementos dos thugs), eles são como os seus pais e eles mandam em você. Quando você dorme, eles dormem junto. Somos uma família», relata outro elemento. «Muitos estavam numa escola, mas quando não têm aquele apoio para continuar na escola como deve ser, saem, abandonam a escola e ficam na rua a fazer pequeneza». Muitos jovens «saíram da escola por causa do dinheiro para pagar a propina da escola, e acabam por ficar na rua» acrescenta outro thug.

«Nós somos delinquentes porque não tivemos apoio nenhum», prossegue, «só ouvimos críticas em vez de apoio. Quando estão muitas pessoas, e eu estou lá, recebo apenas criticas como eu sou bandido, mas se eu estou com o meu grupo e encontrarmos essa pessoa...», pára de falar e olha para o outro elemento do grupo, que acrescenta «...temos de o agredir». Para os thugs o sentido de protecção passa também pelo respeito, mesmo se este seja imposto por intermédio da violência.

«Os habitantes da nossa zona respeitam-nos muito, muito, dão-nos comida, pagam-nos e dão-nos muitos presentes» em contrapartida «nós damos-lhes protecção. Qualquer problema com outras pessoas, vêm até nós». Esta engrenagem provocou que «jovens mesmo que não querem ser delinquentes nos grupos acabam, mesmo assim, por entrar nos grupos» afirma um chefe.

O fenómeno dos thugs circunscreve-se à ilha de Santiago, com especial incidência na capital, Praia, a qual alberga mais de dois terços da população da ilha. No arquipélago outras ilhas, como Fogo ou São Vicente têm também alguns casos, mas periféricos e não representativos do fenómeno.

Os thugs reconhecem que se financiam com pequenos tráficos de droga, assaltos a veículos, residências e pessoas, por vezes com violência. «Quando não está uma família, assaltamos a casa. Mas, assaltamos, principalmente, pessoas na rua, qualquer um. Os brancos são os melhores, porque têm mais dinheiro. Mas não importa a cor da pessoa o que importa é termos o dinheiro dele» conta um chefe de grupo. «Costumo assaltar brancos no hotel Praia Mar», reconhece, «mas também podemos dar protecção a esses brancos. Há um que sempre me deu dinheiro, e eu protegia-o. Basta alguém querer ser protegido que chega a um jovem dá-lhe um dinheirito e pronto, já está protegido. Imagina, nós somos um grupo, você dá-nos um dinheirinho, vem outro grupo para atacar você e nós não deixamos, passa a ser uma briga só entre nós, os grupos».

Hoje a violência dos thugs é principalmente manifestada na luta entre grupos e cada um controla uma zona ou território, frequentemente limitada por um bairro. Entre grupos «há sempre guerra», confirmam, «guerra com outros grupos rivais. Os outros não vêm à nossa zona e nós não vamos à zona deles. Nós controlamos a nossa zona». As frequentes guerras entre grupos têm causado inúmeros feridos e mortos. «Eu já fui muito ferido mas também já feri muito» conta um chefe enquanto expõe as múltiplas cicatrizes. «Há tiros de um lado e de outro. Muitas vezes há mortos».

Durante as guerras de grupos os thugs utilizam todo o tipo de armas, ferros, matracas, facas, machados e armas ligeiras. «As armas muitas vezes compramos, mas por vezes há guardas nas obras que estão bêbados e nós levamos-lhes as armas», confirma. «Dentro da escola eu consegui uma arma», sublinha um segundo do grupo. «Além disso também criamos as nossas armas, “Bóca Velhio”, eu sei fazer essa arma» diz outro elemento, «é uma arma que dispara com qualquer tipo de bala. Depende da espessura do tubo. Mas, basta bater certo na bala e é sempre um tiro que dá. Com a evolução já pode utilizar duas bocas».

Para os thugs existem cerca de uma centena de grupos apenas na ilha de Santiago, e contestam a versão oficial que indica que estão em declínio. «Existem muitos grupos. Grupos novos. Novos a levantar e a criar outros grupos», explicam. Segundo os thugs as forças de segurança não conhecem os novos elementos e grupos, nem as novas metodologias dos thugs, daí que a percepção se limita aqueles já identificados e combatidos pela polícia, os quais estão, realmente, em declínio.

«Havia dois grupos que estavam fortemente armados. Eles ainda existem, mas os mais antigos, os repatriados que vieram com toda essa influência, são mais brandos, mas os que estão a levantar de novo, os mais jovens, ainda continuam com esse grupo. Os mais antigos ficam só a dar ordem e a controlar, não agem».

«Acontece uma coisa, a polícia vem aqui porque já te conhece, prende você e leva você. Mas a delinquência está mais grave, não estão acontecer mais guerras mas mais mortes. Agora os grupos estão a dar uma trégua para evitar fazer vítimas. Agora atacamos alvos precisos. Neste momento fazemos planos para ataques. Os thugs agora pensam assim, não vamos entrar na zona deles e não pegar em nenhum deles, nós não sabemos se polícia está a ver. Por isso temos de ir nesse bairro para pegar num, custe o que custar, mas temos de fazer uma vítima, e assim vencemos». Apesar do Governo cabo-verdiano ter programas especiais para reinserção dos thugs, através da formação profissional, esta acção é penalizada pela marginalização e discriminação de algumas instituições face aos elementos dos grupos que pretendem abandonar os thugs.
«Quando os polícias querem capturar uma pessoa eles chegam com muita agressividade. Basta um polícia me reconhecer na rua, mesmo se não estiver a fazer nada, eles vêm logo. Aconteceu-me há dias», conta um elemento e outro acrescenta: «uma vez a polícia apanhou-me no flagrante e com chutos de bota feriu intestinos por dentro, foram cerca de dez polícias, todos me bateram. Bateram na rua, bateram na esquadra, quando me foram fechar na cela também me bateram».

Os thugs apenas conhecem duas instituições públicas, a polícia e o hospital. No entanto, quando entram em conflitos com outros grupos e são gravemente feridos dizem que são maltratados pelos serviços médicos. «No hospital dizem que eu sou bandido e tratam-me de qualquer maneira», conta um thug. Uma espiral de violência de descriminação que empurra estes jovens a permanecerem nos círculos da criminalidade organizada. Mesmo assim pensam no futuro.

«O meu futuro?... Foi por pensar no meu futuro que eu apoiei o PAICV para ver se daqui por diante me iria apoiar. Votei PAICV e acredito neste governo. Apoiei de toda a forma para que ele ganhasse, porque eles disseram-me que se ganhassem eu poderia ganhar uma formação profissional. Eu acreditei no que disseram, votei neles, e fiz com que as minhas irmãs, que diziam que não iam votar porque nunca fizeram nada por elas, votassem neste governo para que eles ganhassem as eleições e me possam ajudar como me prometeram. Agora estou à espera».

Rui Neumann

((in Password Confidential Newsletter)

(c) PNN Portuguese News Network

2011-03-17 16:34:07

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