A decisão de «reformar» o presidente da FLEC, Nzita Tiago, assinada pelo vice-presidente do movimento, Alexandre Tati, e do histórico Chefe de Estado-maior, Estanislau Boma, provocou uma crise sem precedentes na resistência cabindesa.
Em Agosto de 2004, Helvoirt na Holanda, os dois principais movimentos armados da resistência cabindesa, FLEC/FAC e FLEC Renovada, lideradas por Nzita Tiago e António Bento Bembe, decidiram optar pela fusão como a derradeira solução para garantir a sobrevivência da resistência.
A dissidência de Bento Bembe, 2006, juntamente com os seus acólitos da extinta FLEC Renovada provocou uma efémera crise no movimento que regressou ao estado de 2004 não abalando contudo a sua estrutura. Na realidade a fusão nunca existira de facto e apenas alguns representantes na Europa decidiram juntar sinergias diplomáticas obtendo parcos resultados, na realidade já viciados por uma acção paralela «secreta» da ala dos da «Renovada».
O que poderia ter sido um «tsunami» na FLEC, com a dissidência de Bento Bembe, não passou de uma pequena tempestade tropical. O segredo da longevidade do movimento baseava-se nos seus alicerces em África, a guerrilha, que mantinha posições no interior do enclave. O braço armado da FLEC era assim reconhecido como a coluna vertebral do movimento e o sustento da legitimidade das representações na Europa que o padre João Baptista Ngimbi as definira como a «resistência de canapé» dada a sua inércia e dislexia comunicativa com os operacionais em África.
A incomunicabilidade Europa/África abrira um fosso entre o grupo dos «representantes» e os militares, os quais já não aceitavam de bom grado que os elementos na Europa decidissem por aqueles que estavam na «mata». A cyber-guerrilha, arma favorita dos elementos da FLEC no exterior de África, assente na difusão maciça de comunicados, opiniões e declarações, frequentemente injuriosos e difamatórios, que danificaram fortemente a imagem da FLEC, justificou que as chefias militares da FLEC organizassem uma delegação que subitamente deslocou-se a França, onde residem os principais elementos da direcção, e constatar «in loco» a anárquica realidade.
Após duas viagens capitais a França e uma longa hesitação, alimentadas por múltiplas reuniões em África, o número dois do movimento, Alexandre Tati, e o histórico chefe militar Estanislau Boma, decidiram, a revelia dos estatutos da FLEC, exonerar em bloco todos os representantes do movimento no exterior e «reformar» o intocável líder Nzita Tiago. A par com os dois responsáveis, aliaram-se os principais chefes militares da guerrilha.
Energeticamente Nzita Tiago acusa os seus ex-fieis de «traição» e emite um comunicado a 30 de Junho onde destitui Alexandre Tati e Estanislau Boma além de Carlos Moisés, chefe da segurança, e Luis Veras, encarregado das missões da Presidência. Apesar de não serem citados, num e noutro documento, foram também afastados outros chefes militares históricos que se solidarizaram com o «vice», considerados como peças vitais no xadrez logístico da luta armada em Cabinda.
Por prudência Nzita Tiago não nomeou substitutos para os postos vagos. Mas tudo indica que a experiência de um «vice-presidente» terminou com Alexandre Tati. Por outro lado a FLEC encontra dificuldades em escolher novos chefes para as regiões militares. Mauricio Lubota Sabata, comandante da Região Militar de Miconje e Chefe Adjunto da Frente Norte, que se manteve fiel a Nzita, declarou que ficou surpreendido com a decisão de «reformar» o presidente Nzita Henriques Tiago durante uma reunião que decorreu de 20 a 22 de Junho assim como a declaração do chefe do estado-maior, Estanislau Boma, na imprensa de 29 de Junho.
Segundo Sabata, durante a reunião «muitos assuntos foram debatidos» mas já se sentia que «a notícia que pairava» tendo sido abordada também uma «eventual rendição que os combatentes negaram». Na mesma ocasião «muitos esclarecimentos deram sobre informações circulavam dos contactos entre os responsáveis do MPLA e da FLEC.»
Fontes próximas da ala fiel a Nzita Tiago afirmam que «Angola deu muito dinheiro à direcção da FLEC para comprar a consciência do combatente» tendo circulado o rumor que cada combatente iria receber «cinco mil dólares por mês». Em Fevereiro, indicam as mesmas fontes, alguns guerrilheiros teriam sido aliciados com 500 dólares, com excepção dos combatentes da Região do Necuto que teriam recebido mil dólares cada. «Existe uma gravação numa cassete em posse do Vice Ministro da Segurança Nacional da FLEC», solidário com Tati, que supostamente é a prova das alegações sobre o aliciamento financeiros dos guerrilheiros.
Independentemente das acusações, exonerações reciprocas, contactos e reuniões discretas, está em curso a mais grave cisão na FLEC das últimas duas décadas. Agravada pelos actores da ruptura que constituem os alicerces históricos armados do movimento.
Aos 83 anos Nzita Tiago tem mais uma batalha pela frente. A manutenção da sua autoridade no movimento e uma reestruturação radical da hierarquia militar da FLEC que se encontra agora decapitada e desestruturada na sua base africana.
Por outro lado, Tati e Boma, tentam reunir apoios para legitimar a sua incitativa mas principalmente de não serem acusados de porem em prática uma segunda versão do fiasco da estratégia de Bento Bembe apresentada aos guerrilheiros, pelos signatários da exoneração de Nzita, como uma «catástrofe diplomática» e «traição absoluta» à causa cabindesa.
A FLEC, como marca, vai sobreviver à cisão, tal como sobreviveu desde 1963 ao seu repetido desmembramento em dezenas de FLEC’s. Todavia, a sua sobrevivência militar pode estar em causa, fruto dos revezes combativos, fraqueza da acção diplomática e da sua falência financeira. Mas, a sobrevivência doutrinal, assente no espírito nacionalista cabindês, anterior ao nascimento da FLEC, permanecerá e será o severo crítico das decisões que se tomam no presente.
Depois de ver desfilar Tiburcio Luemba, Ranque Franque, Bento Bembe, Luanda aguarda pacientemente, mas não inocentemente, o epílogo da actual crise da FLEC.
Rui Neumann |