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Justino Pinto de Andrade
Camarada Falcone - O Diplomata da Espingarda...
Tive a oportunidade de ler uma entrevista efectuada a um jovem intelectual da Guin-Bissau, de nome Ricardo Godinho Gomes, pelo jornal portugus Pblico, por ocasio de um Simpsio realizado em Lisboa nas instalaes da Universidade Lusada.
Recordo que o PAIGC proclamou, unilateralmente,a independncia da Guin-Bissau no dia 24 de Setembro de 1973, em Madina do Bo, h precisamente 30 anos, ainda num contexto de guerra. Assinalo tambm que este jovem - um dos organizadores do Simpsio denominado Guinespora 2003 - possui apenas 32 anos de idade, no tendo tido, portanto, tempo de conhecer o mais ilustre animador e o idelogo de todo o processo que conduziu a Guin-Bissau independncia: Amlcar Cabral, assassinado em Conacry aos 20 de Janeiro de 1973.

Foi necessrio fazer este enquadramento, para que o seu testemunho, e, sobretudo, a avaliao que faz dos 30 anos de independncia, no levantem suspeitas, o que aconteceria na certa se se tratasse de algum com responsabilidades histricas nesse passado j algo distante.

Do balano global feito por Ricardo Gomes, chamou-me particularmente a ateno esta frase simblica: aos que se seguiram a Amlcar Cabral, faltou uma viso do todo. Com esta curta frase, o jovem escritor guineense tocou, verdadeiramente, na ferida... De facto, um dos grandes dramas de muitos dos nossos processos polticos nem mais nem menos este: tais processos foram iniciados por polticos visionrios, por alguns homens e por mulheres de elevada craveira intelectual, indivduos imbudos de profundos sentimentos patriticos, indivduos identificados com as razes de onde beberam a seiva e a alma. Posteriormente, porm, tais processos polticos foram continuados - mas s que em ziguezague - por alguns lderes de baixa craveira intelectual, sem qualquer perspectiva estratgica, sem capacidade para entenderem os verdadeiros rumos da humanidade...

Ricardo Gomes ter acrescentado ainda: Grande parte dos companheiros interpretaram mal o legado de Amlcar Cabral e no tiveram o seu brilhantismo.

Para alm da clara falta de perspiccia de muitos dos dirigentes que se seguiram aos lderes iniciais, eles tornaram-se por sua vez protagonistas de regimes polticos fechados e repressivos, uns com conotaes de direita outros identificados com a esquerda. Num verdadeiro ciclo infernal, tornmo-nos prisioneiros por tempo indeterminado, sujeitos s suas vontades pessoais e a muitos dos seus interesses obscuros.

Eu sei que o que digo aqui provocar uma verdadeira comicho nos espritos de muita gente... Mas no posso deixar de o fazer, pois revejo na nossa prpria histria recente muito da avaliao feita por Ricardo Gomes sobre os 30 anos de independncia da Guin-Bissau... E tal ainda se torna mais evidente agora, quando acaba de cair sobre a nossa honra e o bom nome do nosso pas uma das maiores manchas de que temos memria...

Em nome de uma aparente inteno de fidelidade aos velhos amigos necessitados, mas, na realidade, com vista a protegerem-se interesses inconfessos, acaba de se dar cobertura e dignidade diplomtica a uma figura internacional associada a uma rede de trfico de armamentos, indiciado no seu prprio pas por evaso fiscal, apontado como agente de lavagem de dinheiro sujo, denunciado por corrupo activa na pessoa de dignitrios do nosso Estado.

Na realidade, mais no me resta do que constatar que algum interpretou muito mal aquilo que sinceramente idealizmos quando empreendemos a epopeia da luta pelas nossas independncias. Erradamente, algum ainda estar a pensar que o nosso grande objectivo era, afinal, o de criarmos um pas sem regras morais e ticas, habitado por homens e mulheres sem pudor e decoro, um pas de homens e de mulheres violentos e com ambio desmedida, um pas para acolher e acobertar todos os capciosos, um albergue seguro de trapaceiros.

Se algum assim pensou, ou pensa, enganou-se, posso garantir. No foi esse certamente o iderio de homens como Mrio Pinto de Andrade, Viriato da Cruz, Lcio Lara. No foi tambm para isso que verteram o seu generoso sangue Hoji-a-Henda, Deolinda Rodrigues, Jika, Kwenha ou Gonalves Benedito. No foi a lavagem de dinheiro nem o trfico de influncias que inspirou os poemas de Agostinho Neto. No foi a corrupo que animou o esprito libertrio de dignitrios da Igreja como o Cnego Manuel das Neves e Joaquim Pinto de Andrade. No foi o gosto pela trapaa e pelo golpe baixo que me deram fora anmica para resistir com um sorriso quando, aos 21 anos de idade, eu e outros jovens como eu fomos embarcados para o Tarrafal para cumprirmos uma longa e dolorosa pena de priso... No quisemos leiloar a nossa ptria, podem crer. Hoje, parece que j estamos numa arena do vale tudo, at arrancar olhos...

No Simpsio que referi de incio e que reuniu quadros guineenses na dispora, Mrio Cabral, que foi ministro em sucessivos governos da Guin-Bissau, disse de forma cortante: Os homens que nos governaram no estiveram altura dos desafios lanados por Amlcar Cabral. No houve,
muitas vezes, da parte deles, um enfoque terico. No houve, de facto, como reconhece Mrio Cabral, no caso da Guin-Bissau, e no haver, sempre que se governe como se estivesse a navegar em alto mar sem se estar munido dos adequados instrumentos de navegao. Este o comportamento de todos os governantes desprovidos dos mais elementares fundamentos tericos, daqueles que desvalorizam preceitos morais e valores ticos.

Outro participante no Simpsio, a viver h 20 anos no Brasil, Orlando Cristiano da Silva, disse: O problema da Guin a corrupo, no a falta de quadros, A Guin-Bissau est num abismo.... Sou tambm tentado a concordar com Orlando Silva na sua avaliao e no seu diagnstico sobre a Guin. Reconheo, porm, que a corrupo destri todos os fundamentos e todas as bases de sustentao de um Estado, e um dos exemplos mais acabados ser Angola. Na nossa sociedade, quase j no h rea em que esse flagelo no tenha penetrado. Contudo, muitos dos nossos dirigentes desvalorizam, publicamente, a sua extenso e a profundidade da sua penetrao - julgo eu que, ou por miopia, ou por mera conivncia.

Reconhece-se hoje que a Guin est num abismo..., ento, ns somos um dos seus mais chegados e mais ntimos companheiros de infortnio... Com a Guin, vamos compartilhando j as trevas e a imundcie... S assim se compreende como traficantes e vendedores da morte sejam elevados condio de nossos representantes em organismos internacionais com o prestgio e o simbolismo da UNESCO. mesmo caso para se dizer: j no h estrelas no cu... Estamos todos na mais completa escurido...

Mesmo que haja muitas lacunas na legislao internacional sobre matria diplomtica, optar-se por um subterfgio como o que sucedeu com a nomeao de Pierre Falcone para tratar de matrias como a Cincia, a Educao e a Cultura , certamente, o maior equvoco que um governo que pede constantemente respeito pode cometer. Atribuir a Pierre Falcone tarefas como a de promover os processos universitrios angolanos ao nvel do mundo , no mnimo, confundir uma Universidade com um campo de treinamento de mercenrios, ou ento, pretender dar a uma Universidade uma dignidade e uma moralidade que se atribui a um casino...

No certamente o perfil desse nosso novo compatriota que se ajusta imagem do investigar, do homem amante do saber, do homem paciente que espera tempos infinitos para a concluso de um processo cientfico. Ele , sem dvidas, um homem de mala diplomtica recheada de dinheiro, superprotegido por guardas rigorosamente armados, um homem que dorme inquieto porque teme a qualquer momento um ajuste de contas...

Por isso, aqui vai o meu protesto veemente e o meu repdio: s os comparsas e os aclitos se sentem reconfortados com a elevao de um seu igual condio de diplomata da espingarda.

PROVRBIOS
"Kupdi tmuka ko: Nti ava kamnina."
(Ningum pode arrancar: A rvore (adulta) que j tem razes.)
Outros
Relatrio da Mpalabanda 2005 (pdf)

Relatrio da Mpalabanda 2004 (pdf)

Entrevista de Dom Duarte ao IBINDA.COM
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