Links teis
Confidencial

Subscrever Newsletter

Justino Pinto de Andrade
Cabinda: A Intolerncia de um Cortador de Relva
* in Semanrio Angolense, 14 de Fevereiro de 2004
Aparentemente - mas apenas aparentemente - o movimento cvico angolano sofreu um duro revs, depois da atitude, musculada e antidemocrtica, tomada pelo actual governador de Cabinda, o Sr. Jos Anbal Rocha. Este senhor governador impediu que se realizasse o acto de proclamao de uma Associao Cvica local, a Mpalabanda - Associao Cvica de Cabinda.

A palavra Mpalabanda soa muito esquisito, sobretudo para os no naturais de Cabinda. algo que pode ser tomado como um nome de pessoa, como uma referncia a um acontecimento qualquer, ou, talvez, invocando um local especfico, etc. Na realidade, Mpalabanda designa, apenas, uma rvore local de razes bastante profundas, de razes que se espalham por uma vasta rea. So estas razes profundas que legitimam o desejo dos principais promotores da Associao Cvica de Cabinda, de fazerem valer e de estenderem os seus direitos cvicos e de cidadania. Mesmo assim, a Mpalabanda nasceu - embora sob o signo da rejeio e da desconfiana.

O governador de Cabinda agiu - como pensou ser seu dever - aparentemente em defesa da sua Dama... Nesta encenao, Anbal - qual Procnsul dos tempos modernos - quis afirmar-se como o principal guardio do Templo. Do seu pedestal, Anbal, esse nosso sorridente e simptico Romano de Mbanza Kongo, imaginou-se, pois, muito forte, mesmo hercleo, e anteviu-se travando uma temida sedio dos cabindas.

Forte, mas no seu medo de ver uma secesso em marcha, Anbal, rspido, mandou avanar a sua tropa couraada, contra, afinal..., padres, outros pastores de cruz e batina, contra mulheres - muitas delas velhas contra moas temerosas de a qualquer momento serem violadas, contra centenas ou milhares de jovens desempregados e sem destino, contra os mutilados de todo o tipo. No fundo, Anbal - O Temerrio - mais no quis do que aoitar parte de um povo tido j como inconformado e rebelde.

Este Anbal que aqui vemos - sempre receoso de uma rebelio de rua de cabindas descontentes, sobretudo, dos civis indefesos - hoje transformado em mandatrio da nossa quase Cidade-Estado, no se pode confundir, nunca, com o outro Anbal, forte e corajoso - o que submeteu Cartago, denominado, por isso, Anbal - O Africano.

O Anbal dos tempos mais longnquos - O Africano - travou duras batalhas - creio que de capa e espada - e montou cavalos; avanou, pessoalmente, sem medo, contra as tropas adversrias. Aquele Anbal deu o exemplo, colocou-se na crista da sua tropa, e sitiou a cidade.

O nosso Anbal, o actual - O Burocrata - feito, s pressas, pelo seu Chefe, pau para toda a obra, demonstrou, em Luanda, ter grande vocao para ser um dedicado cortador de relva... O nosso Anbal, sempre afvel e bem falante, no plantou rvores, enquanto esteve frente do governo provincial da nossa capital. Inclusive, permitiu que se arrancassem muitas rvores, como, por exemplo, as que ladeavam uma parte da dita Avenida do Aeroporto, junto s oficinas da Presidncia. Por isso, apetece-me sempre cham-lo Anbal - O Lenhador.

Com o apoio de algumas empresas privadas, e de outras, este Anbal - O Desarborizador - deixou, porm, a sua marca mais registada em alguns jardins - que foram, sim senhor, recuperados, mas que criaram apenas a miragem de estarmos perante um eficiente e proficiente administrador da cidade. Contudo, o bom do nosso Anbal construiu um viaduto e edificou trs passagens areas, que bem poderiam ser localizadas talvez na Era do seu homnimo que tomou Cartago, h muitos e muitos sculos.

Ele, o nosso antigo governador, deixou as suas pegadas bem visveis nos bairros perifricos de Luanda. s sextas-feiras, Anbal - O Todo Terreno - em jeep de elevadssima cilindrada, e o seu cortejo de sbditos e de basbaques, percorriam as nossas ruas empoeiradas, dizendo-se em busca de solues pontuais... Ele e os seus antecessores, deixaram, porm, os nossos bairros tal e qual, ou pior do que encontraram.

Com o apoio dos seus mais prximos - e, em especial, do seu sucessor, Simo - o Trungungueiro - o nosso Cruzado deslocou milhares de cidados inofensivos, alegadamente, para lhes dar outra e melhor guarida, para os proteger das intempries. No fim - vimos todos - remeteu-os para toscas tendas e para sarjetas (onde, hoje, muitos ainda habitam), desempregou-os, retirou-os, indirectamente, das escolas, remeteu-os para a mais longnqua e mais inspita periferia.

Se, por acaso, a sua condio de governante tivesse terminado em Luanda, o seu nome teria ficado registado na histria, certamente, com o cognome de Anbal - O Jardineiro. Mas no, o homem foi cumprir misso em Cabinda, onde tambm vai fazendo das suas... Por isso, na pior das hipteses, teremos, agora, um homem diferente, mais belicoso, mais truculento. J o vimos, a est, de corpo inteiro: Anbal - O Sitiador do Estdio do TAFE.

O Anbal de todos os cognomes... Mas, sobretudo, este ltimo, este que quis fazer do Estdio desportivo do TAFE, em Cabinda, um campo privilegiado para se travar uma espcie de batalha final, ser o Anbal imortalizado.

Anbal - O Guerrilheiro dos Despachos - o expedito proibidor de manifestaes pacficas, o arauto da pacificao do Enclave, deliciou-se, imaginando-se numa guerra ridcula em que, de um lado, estariam, quando muito, padres e pastores de vrias confisses religiosas, todos armados de bblias e de crucifixos, seguidos na sua cauda por populares indefesos, supostamente armados, mas..., de lenos, de bandeirinhas e bandeirolas, de sombrinhas de chuva e de sol, (para se protegerem dos pingos e do calor); do outro lado, ficaria o Anbal - O Estratega Militar - colocado entre soldados e polcias, munidos de baionetas e de fogachos, prontos para abafar toda a tentativa de perturbao da ordem pblica, nem que fosse o espirro de um beb engripado...

Seria essa, pois, meus caros compatriotas, a Me de Todas as Batalhas travadas alguma vez na terra rebelde de Cabinda... E esta sangrenta Batalha seria ganha, pelo menos na sua imaginao, por algum que se julgou, talvez, um Almirante Romano dos tempos modernos, por quem se sups franqueando o rio Zaire, (claro, comodamente instalado num avio de passageiros...) - como se do Mediterrneo homrico se tratasse... Nessa antevista batalha muito feroz, confrontar-se-iam tambm: de um lado, os que querendo fazer ouvir a sua voz, lutam pela defesa dos seus direitos de cidadania; do outro, Anbal O Exterminador - a colocar hordas de homens armados com arcabuzes, de metralhadora em riste, supostamente, para impedir uma iminente sublevao...

A proibio do acto pblico de proclamao de uma Associao Cvica em Cabinda foi, pois, do meu ponto de vista, a colocao do acento que faltava sobre uma palavra que, afinal de contas, simboliza a verdadeira cultura poltica e a muito reduzida conscincia cvica de grande parte dos nossos dirigentes: a intolerncia.

PROVRBIOS
"Kupdi tmuka ko: Nti ava kamnina."
(Ningum pode arrancar: A rvore (adulta) que j tem razes.)
Outros
Relatrio da Mpalabanda 2005 (pdf)

Relatrio da Mpalabanda 2004 (pdf)

Entrevista de Dom Duarte ao IBINDA.COM
Cartoon
Hospedagem de Sites Low Cost Jornal Digital Luanda Digital Bissau Digital Jornal de São Tomé Timor Leste Cabo VerdeMaputo Digital
Not�cias no seu site Recrutamento Estatuto editorial Ficha técnica Contactos Publicidade Direitos autorais